Sobre como a mente sinaliza que algo não vai bem
Somos seres relacionais por natureza. Desde o nascimento, nossa sobrevivência depende do vínculo com outras pessoas. É na relação com o outro que aprendemos a confiar, a nos proteger, a construir identidade e a encontrar sentido para muitas das experiências que vivemos. Mas é também nesse mesmo encontro com o mundo e com as pessoas que surgem frustrações, perdas, rejeições, conflitos e dores emocionais.
Por isso, talvez seja importante reconhecer algo que nem sempre gostamos de admitir: viver implica, inevitavelmente, correr o risco de adoecer emocionalmente. Não porque exista algo errado conosco. Não porque sejamos fracos. Mas porque estamos continuamente expostos às experiências humanas. Nos relacionamos, nos decepcionamos, criamos expectativas, enfrentamos mudanças, acumulamos responsabilidades e, muitas vezes, carregamos feridas que nem percebemos ter adquirido ao longo do caminho.
O problema é que nos acostumamos a prestar atenção à saúde mental apenas quando o sofrimento já se tornou evidente. Quando a ansiedade já está intensa, quando o desânimo já interfere na rotina, quando os relacionamentos estão comprometidos ou quando o corpo começa a manifestar aquilo que a mente vem tentando sustentar há muito tempo.
Mas o adoecimento emocional raramente começa de forma abrupta. Na maioria das vezes, ele se instala silenciosamente. É um processo gradual. Pequenas mudanças na forma como pensamos, sentimos e interpretamos a realidade vão se acumulando ao longo do tempo. E justamente por serem graduais, muitas vezes passam despercebidas. Quando finalmente percebemos que algo não está bem, talvez já tenhamos ultrapassado um momento em que intervenções mais simples, como uma boa psicoterapia, poderiam ajudar a reorganizar o que estava começando a se desestruturar.
Talvez por isso tantos profissionais defendam que a psicoterapia não deveria ser procurada apenas em momentos de crise. Não porque todas as pessoas estejam gravemente adoecidas, mas porque todos nós estamos continuamente sendo afetados pelas experiências que vivemos. Em alguma medida, estamos sempre elaborando perdas, enfrentando conflitos internos, revisando crenças ou tentando nos adaptar a novas circunstâncias.
E como perceber quando algo não está bem? O psiquiatra e psicanalista Gherardo Amadei, em seu livro Como a Mente Adoece, propõe uma reflexão interessante. Segundo ele, um dos sinais mais importantes do adoecimento psíquico é o enrijecimento do funcionamento mental. Uma mente saudável tende a ser flexível. Ela sofre, se adapta, reconsidera, aprende, revisa conclusões e encontra novas formas de interpretar a própria experiência.
Já uma mente que está adoecendo vai, aos poucos, perdendo essa capacidade de movimento. A pessoa passa a acreditar que determinadas situações nunca poderão mudar, e começa a enxergar a própria história como uma sentença definitiva. A infelicidade deixa de ser uma experiência e passa a ser percebida como destino. Relacionamentos deixam de ser encontros possíveis e passam a ser vistos como fontes inevitáveis de sofrimento, rejeição ou humilhação.
Frases como “eu sou assim mesmo”, “nada dá certo para mim”, “sempre foi assim”, “relacionamentos não são para mim” ou “não adianta tentar” podem parecer apenas desabafos. Mas, em alguns casos, revelam algo mais profundo: a perda gradual da capacidade de imaginar possibilidades diferentes.
A rigidez também pode aparecer na forma como a pessoa enxerga a si mesma. Algumas passam a se sentir permanentemente inadequadas, insuficientes ou erradas. Outras constroem uma imagem de superioridade que funciona como defesa contra sentimentos de fragilidade. Em ambos os casos, a percepção de si se enfraquece.
Outro sinal importante é a perda da espontaneidade. Aos poucos, a vida vai sendo vivida mais no automático do que na experiência real. A pessoa deixa de se conectar com aquilo que sente e passa a funcionar quase como uma máquina de desempenho, buscando aprovação, reconhecimento ou validação constante. O presente perde espaço para preocupações, obrigações e expectativas externas.
Talvez o aspecto mais delicado desse processo seja que ele costuma acontecer de forma silenciosa. A pessoa continua trabalhando, cumprindo compromissos e seguindo a rotina. Mas internamente algo vai se tornando cada vez mais rígido, limitado e previsível.
Por isso, cuidar da saúde mental não é apenas aliviar sintomas quando eles aparecem. É também preservar a capacidade de continuar mudando, aprendendo, sentindo, questionando e construindo novas formas de existir.
Talvez uma mente saudável não seja aquela que nunca sofre, nem aquela que, mesmo diante do sofrimento, continua capaz de imaginar que outras possibilidades ainda existem. Porque o adoecimento emocional frequentemente nos convence de que estamos presos. Mas a saúde emocional começa justamente quando voltamos a perceber que ainda podemos nos mover.
Leitura que inspirou esta reflexão
Gherardo Amadei — Como a mente adoece
O processo psicopatológico do ser humano
🌿
Daiane Haas Marx
Psicóloga e Neuropsicóloga
Escrevendo sobre mente, emoções e relações humanas.