Neurodivergência

“Na minha época não tinha isso”: o que mudou?

Entre rótulos antigos e nomes novos: estamos vendo mais… ou entendendo melhor?

É comum escutar frases como: “Hoje em dia tudo é TDAH”, “Agora todo mundo é autista” ou “Na minha época não tinha isso”. Mas será que não tinha mesmo — ou será que não era nomeado?

Se voltarmos às salas de aula, aos grupos de amigos e às famílias de outros tempos, é possível reconhecer perfis bastante familiares: aquele que não parava quieto, o que vivia distraído, o extremamente inteligente, mas desorganizado, o que tinha dificuldade de acompanhar, o mais quieto, isolado, o “diferente”. Eles sempre estiveram lá.

A diferença é que, naquele tempo, não havia compreensão — havia rótulo. Eram vistos como “preguiçosos”, “burros”, “problemáticos”, “sem limites” ou, em alguns casos, “gênios, mas esquisitos”. O que hoje tentamos compreender, antes era, muitas vezes, apenas julgado.

Do ponto de vista clínico, dar nome a um padrão de funcionamento não significa criar algo novo. Significa organizar aquilo que já existia, mas que era interpretado de forma imprecisa — e, muitas vezes, injusta. Quando falamos em TDAH, autismo ou outras formas de neurodivergência, estamos nos referindo a diferenças reais no funcionamento cognitivo, emocional e comportamental: dificuldades atencionais, variações no processamento sensorial, formas distintas de comunicação e padrões específicos de resposta ao ambiente.

Antes, essas características eram atribuídas à falta de esforço, à má educação ou ao “jeito da pessoa”. Hoje, começamos a olhar para isso com mais nuance — e isso muda não apenas a compreensão, mas também as possibilidades de cuidado.

Ao mesmo tempo, é importante reconhecer que vivemos um momento de transição, e isso pode trazer distorções. De um lado, a negação — a ideia de que “isso não existe” ou que tudo se resume à falta de disciplina. De outro, a banalização — quando qualquer dificuldade passa a ser rapidamente rotulada como diagnóstico. Nenhum desses extremos ajuda. O desafio está em sustentar um olhar mais cuidadoso, que não ignore o sofrimento, mas também não simplifique demais a complexidade humana.

Há ainda um fator importante: o contexto atual. Vivemos em um mundo mais acelerado, mais exigente e, sobretudo, mais estimulante. Múltiplas telas, excesso de informação, demandas simultâneas e pouca pausa fazem parte do cotidiano. Para qualquer cérebro, isso já representa um desafio. Para aqueles que apresentam dificuldades de atenção, regulação ou maior sensibilidade, esse cenário pode potencializar ainda mais as dificuldades.

Ou seja, não é necessariamente que “agora existe mais”, mas que, hoje, essas características se tornam mais evidentes — e, muitas vezes, mais impactantes.

Quando uma criança era chamada de “preguiçosa” ou um adolescente era visto como “difícil”, o que isso produzia internamente? A ausência de compreensão não elimina a dificuldade — ela apenas a transforma em sofrimento. Hoje, quando conseguimos nomear, investigar e compreender, abrimos espaço para intervenções mais adequadas, estratégias mais ajustadas e, principalmente, menos culpa.

Nomear não limita. Nomear orienta.

Talvez, então, a pergunta não seja se hoje existe mais. Mas se hoje estamos, finalmente, olhando melhor. O que antes era invisível começa a ser reconhecido; o que antes era julgamento pode se tornar compreensão.

Isso não significa sair rotulando tudo, mas também não podemos retornar a um tempo em que todas as diferenças eram reduzidas a falhas de caráter ou problemas de comportamento. Entre negar e banalizar, existe um caminho mais exigente — e mais necessário: o de compreender com responsabilidade.

Porque, no fim, as pessoas diferentes sempre estiveram entre nós. A diferença é que, hoje, temos a oportunidade de não apenas vê-las, mas de entendê-las — e, a partir disso, oferecer algo que por muito tempo faltou: respeito, ajuste e possibilidades reais de desenvolvimento.

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Psicóloga Daiane

Sou psicóloga e neuropsicóloga — e, antes de qualquer coisa, alguém profundamente interessada nas pessoas: nas suas histórias, nas suas dores e na sua forma única de existir no mundo.